Entrever é tão bom quanto ver

Fábio Padilha escreveu este texto sobre o meu trabalho que fez parte da Exposição Coletiva: Sobre Livros…


Escrever sobre livro de artistas vem sendo uma experiência maravilhosa e, eu diria um tanto mística; pois à medida que folheio o trabalho de Rafaela Jemmene, vejo que meus olhos se encantam por aquela folha prolongada como a brisa e de textura vigorosa como se em tudo houvesse um perfume de mata virgem. Eu sei que minha sensibilidade traz elementos que parecem longínquos, mas isso acontece justamente porque a obra de arte recupera as minhas sensações mais intensas, o que ocorre, sem dúvida, aqui... Ainda mais quando me deparo com a visão certeira de Rafaela de inserir frestas voluptuosas nas folhas onde se pode entrever um trecho da folha que virá depois. Falar assim parece simples, no entanto, Rafaela, encontra aquela parcela mais delicada, mais sonhadora e mais musical de um futuro (a próxima página) que não sabíamos tão íntimo. Consegue, decerto, tal efeito através de um papel de cor negra, do brilho suave do grafite e da delicadeza gráfica da linha que, aqui e ali, se faz presente. Então, torna-se comum, enquanto tudo é incomum e belo, acompanhar com os olhos uma linha solitária que nos leva àquela incidência recortada da folha onde, por acaso, nos detém a felicidade do cinza, e assim a cada sopro suave do vento reorientamos as velas para mais uma expedição do inefável, cada folha virada é uma nova coordenada. E quanto mais velejamos, mais surpresas temos, muito porque seu trabalho requer a calma de perceber as sutilezas, de perder qualquer vínculo com o tempo tempestuoso e atribulado do dia a dia. De fato, Rafaela é capaz de dilatar a experiência da vida e de explorar ao máximo o desejo de descoberta. Talvez seja por isso que me identifico tanto com seu trabalho...